quinta-feira, 23 de julho de 2009

A comunicação e o comunicador



Pensar o jornalismo moderno sem os meios eletrônicos é tarefa impossível. Não identificar a importância da imagem, da instantaneidade da internet e da velocidade em que se multiplicam as informações é perder a lógica da comunicação atual. Temos que pensar a notícia de forma integrada. Estamos cercados de meios, mas esquecendo de determinar seus fins. Esta pluralidade pode significar o estrangulamento da informação pela diversidade das mídias.

É preciso estar atento. Quando o telejornalismo surgiu no Brasil, nos idos de 50, chegamos a profetizar o fim do rádio como veículo jornalístico. Por um momento acreditamos que a divulgação de imagens poderia dar fim a comunicação verbal. Algum “vanguardista de plantão” exclamou aos quatro ventos: “a imagem diz mais que qualquer palavra”, mas para o bem da comunicação social ele estava errado e ficamos felizes em ver o surgimento das rádios all news no fim da década de 90.

O rádio é e talvez por muito tempo ainda continuará sendo o veículo de informação mais democrático da era moderna. A radiodifusão une pessoas das mais diversas raças, classes socioeconômicas e nível intelectual. O alto executivo ouve a Lúcia Hipólito, na CBN, e fica informado sobre a redução do IPI do mesmo jeitinho que seu João, um hulmide lavrador, descobre na voz do Canázio, pela AM, que agora pode comprar sua primeira geladeira porque agora o preço caiu.

A televisão tem sua força e seu espaço. Em tempo real nos mostra como é a vida do outro lado do mundo. Mesmo quem não sabe ler ou escrever consegue entender que na China as pessoas não usam garfos para comer macarrão, o fazem com o auxílio dos “palitinhos”. Dá até pra rir disso e ficar informado ao mesmo tempo. Também através da telinha podemos entender que a Tsunami é uma “onda do mar revoltada” que destrói tudo que vê pela frente, sem que para isso precisemos ser especialistas em meteorologia.

A imagem diz muito sim; marca momentos, locais e, por vezes, expressões impossíveis de serem narradas como a cara de um político ao ser desmascarado em rede nacional. Mas, quase sempre, precisa de complemento. A simples imagem da enchente de um rio pode ter diferentes significados. Para que seja compreendia claramente carece de apoio: é preciso localizar o fato, identificar os envolvidos, causas e conseuências, seja através da locução ou da inserção de legendas. A palavra exerce seu papel de encadeadora do raciocínio em qualquer veículo. Cabe ao jornalista moderno essa “simbiose”.

Hoje vivemos a era da informação digital. Estamos cercados de portais, sites, blogs. Temos o Orkut, o Twitter, o Hi5... A cada instante recebemos um novo e-mail cheio de informações ou novas “fofocas” pelo MSN. Os scpraps estão aí! Até mesmo o celular perdeu sua função prerrogativa e agora serve como display para notícias das mais variadas. A “terceira guerra mundial” está aí e, nós comunicadores, precisamos nos armar!

Quem hoje em dia, nos grandes Centros, consegue se ver livre da internet? Nessa rede mundial é possível descobrir o mundo, entender a política, a economia, fazer pesquisas escolares, bater-papo e ainda ver as últimas gatas da Playboy? A sociedade moderna exige novas informações a todo instante e precisamos qualificá-las porque queiram os magistrados ou não, somos jornalistas por formação. Temos que alimentar a rede com notícias, números e informações de toda natureza na velocidade digital. Não temos tempo à perder!

Precisamos nos preparar. Entender que o rádio está presente no dia-a-dia da sociedade e que fala para todos os que podem ouvir, sem pedir licença! Não podemos desqualificar o veículo muito menos o ouvinte. Ao escrever "pro Rádio" lembrem-se do seu João lá do sertão da Bahia. Para ele “Redução de IPI” significa apenas que o preço da geladeira baixou. Então se faça entender!

Ao redigir pra TV não esqueça: tudo aquilo que pode ser mostrado não precisa ser dito! Mesmo as pessoas de raciocínio lento rapidamente entendem quando uma matéria é repetitiva, cansativa e chata. Ganhe tempo; corte palavras. Utilize mecanismos como “sobe som”, “respiro”, “insert”, “videografismo”, tabelas, etc., para dar velocidade à informação e tornar seu VT mais atraente. Se for entrar ao vivo preste atenção para não repetir aquilo que foi dito por um entrevistado. Mais ainda, não responda às suas próprias perguntas!

Quando for pensar num texto para internet fique atento: por mais horas que se passe diante do computador ninguém “tem saco” para textos intermináveis. Os links e hiperlinks servem exatamente para suprir o leitor de detalhes sobre determinada matéria. Só quem realmente precisa aprofundar-se em determinado tema irá clicar ali. Portanto, seja breve: privilegie as informações mais importantes no seu texto. Na web tem mais peso o que acabou de acontecer! Junte a isso imagens interessantes numa mesma janela utilizando plug-ins!

O jornalista que pretende sobreviver nos dias atuais precisa ser versátil, inteligente. Sagaz ao ponto de perceber as diferenças entre os veículos, suas funções, seus públicos-alvo. Só assim é possível escrever, falar e mostrar informações coerentes. Seja no rádio, na TV ou na Web só há vagas para profissionais bem "formados", informados e com facilidade de adaptação. Qualifique-se se de fato quiser fazer valer o diploma de jornalista. Caso contrário, o Gilmar Mendes terá razão!

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domingo, 19 de julho de 2009

Amigo

Há dias em que nada tem graça:
A lua brilha sem luz,
O Sol arde sem queimar,
E a água não mata a sede.

Tudo a nossa volta é vazio.
As palavras não se encaixam,
Os pensamentos são fúteis,
A vida treme no fio da navalha.

Os livros já não tem mais significado.
Os discos não conseguem aconchegar...
A tela do micro é uma pedra de gelo
E o carteiro se esquece de chamar à porta.

As curvas da estrada já não dão emoção.
O ronco do carro agora é barulho!
O locutor é um chato desmedido
E nem mesmos as propagandas conseguem fazer sinal.

Estamos cercados da mesmice!
A casa é mesma,
O corpo ao lado é só corpo,
A bagunça na sala já não traz alegria.

A solidão parece um caminho.
O roleta russa uma obsessão!
Mas na hora do gatilho, o último sentido:
A voz do amigo.

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quarta-feira, 15 de julho de 2009

A Ditadura da Boa Idéia

por Pedro Rampazzo

Uma das discussões mais produtivas que me envolvi, em 2009, foi sobre a defesa da “idéia”. Tenho um amigo, inteligentíssimo, que acha que o principal na vida é ter “boas idéias”. Durante um tempo, também acreditava que grandes idéias moviam o mundo. Errado! O que move o mundo são ações. E no audiovisual, como em todas as outras áreas que conheço, também é assim. Nos dias atuais, com a velocidade do tráfego de informações, uma boa idéia não é quase nada: pode durar apenas alguns minutos. Todo mundo tem boas idéias para um filme, mas poucas chegam a um roteiro e menos ainda a uma obra audiovisual. Por quê? O caminho é longo e cheio de ladeiras (parece Olinda). Comecei a me interessar por vídeo e cinema faz uns dois anos. Tudo começou com uma idéia: virar cineasta! A partir daí comecei a ver possibilidades audiovisuais em tudo. O cinema, por possuir movimento, é muito parecido com o mundo, com as pessoas e as situações, é fácil enxergar cinema em tudo, difícil é realizar... difícil e muito mais prazeroso que pensar e ter idéias. Em 2005, fui a um festival de música popular que existe na cidade do Cabo de Santo Agostinho (PE) e, tomando umas cervejas debaixo de um sol escaldante, ouvi (estava de costas para o palco) um coro de vozes femininas cantando umas melodias lindas. Como sou militante da música popular (é com isso que trabalho, atualmente), virei para o palco, olhei e me apaixonei de imediato: era o grupo Coco de Tebei que estava se apresentando. Lindo! Fazem música com o corpo. Cantam e batem os pés para marcar o ritmo. Não possuem instrumentos musicais (nem precisa). Voltei para casa com aquela imagem e som na cabeça. Tinha que ver “aquilo” novamente. E a oportunidade veio alguns meses depois. O Coco de Tebei, da pequena cidade de Tacaratu, sertão pernambucano, veio para Olinda, se apresentar no terreiro do saudoso Mestre Salustiano, falecido este ano. Eu e Paloma Granjeiro, minha sócia e amante, fomos para a Casa da Rabeca ver, novamente, este grupo maravilhoso. Antes da apresentação, fizemos contato com os integrantes e propomos um trabalho juntos. Disse a verdade: estávamos apaixonados por aquela brincadeira que eles faziam. Num próximo encontro, acertamos tudo. Foi assim que nasceu o projeto Eu Tiro o Couro do Dançador (2008): CD + DVD com o Coco de Tebei. No CD, gravamos 16 músicas interpretadas pelo grupo e alguns convidados. Para o DVD, produzimos o documentário Tebei, de 21 minutos, gravado em MiniDV, nas cidades de Tacaratu e Recife. O projeto é uma realização da Sambada Comunicação e Cultura (minha empresa com Paloma), com patrocínio do Governo do Estado de Pernambuco e apoio da Cabra Quente Filmes e da Associação Respeita Januário. A direção coletiva é de Gustavo Vilar (historiador); Hamilton Costa Filho (diretor de fotografia) e Paloma Granjeiro (jornalista e produtora fonográfica), além de mim. Nossa principal intenção, com a realização do documentário, foi mostrar para o mundo como vivem aquelas pessoas e divulgar o trabalho artístico delas, único no Estado. A Missão Folclórica de 1938, coordenada por Mário de Andrade, já havia passado por Tacaratu e registrado o coco feito na região. Pena que poucas pessoas tem acesso a este material. Com este primeiro produto audiovisual da Sambada, ficamos empolgados e, incentivados por Hamilton Costa (que é sócio de uma produtora de vídeo), começamos a fazer algumas inscrições em festivais nacionais e, em maio deste ano, ganhamos nosso primeiro prêmio: o Tebei foi o melhor curta digital da Mostra Pernambuco do 13º Cine PE Festival Audiovisual do Recife (2009). Uma boa idéia que deu certo e que está rendendo uma graninha para a Sambada e para o grupo Coco de Tebei, que passou a ter mais visibilidade no mercado musical local. Foi fácil? Claro que não. A realização do projeto durou mais de um ano; envolveu, diretamente, mais de 30 profissionais; custou mais que o valor do patrocínio; agradou e desagradou a muitos... mas, virei cineasta. Empolgado com a “facilidade” das coisas, estou escrevendo meu primeiro roteiro. Não será nada sobre música ou manifestações populares. Será um documentário sobre problemas urbanos que envolvem consumo de drogas e prostituição juvenil. Um tema pesado. Mas preciso fazer, pois agora, vejo cinema em tudo.


Pedro Rampazzo é jornalista, fotógrafo, cineasta (recentemente) e diretor da Sambada Comunicação e Cultura, uma empresa apaixonada pelas artes do Nordeste.

sábado, 4 de julho de 2009

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Castelo Virtual

Juliana Gil

É estranho como o mundo moderno funciona. De certa forma, é como se estivéssemos vivendo em um estado de hibernação desperta. O homem contemporâneo se divide em mil facetas diferentes e não adere a nenhuma; é sufocado pelo constante fluxo de informações, imagens e sons, mas não consegue sair da inércia. Seu corpo e espírito permanecem dormentes, acorrentados por grilhões invisíveis e “gentis” na sua dominação.

Existem tantas opções, tantos caminhos, tantas maneiras de se chegar a um objetivo desejado, mas nunca foi tão difícil encontrar um caminho próprio para trilhar. O homem moderno não tem mais consciência, apenas traços e instruções a serem seguidos sem pestanejar.

Neste círculo vicioso de acordar, trabalhar, descansar e se levantar para ir trabalhar de novo, já não há mais a consciência do eu por si próprio. O ser humano moderno é globalizado, atualizado, “plugado” e “desplugado” do mundo com a rapidez de um piscar de olhos e a crueldade de não se saber agir de outra maneira. A grande ironia é o fato de todas as coisas que a tecnologia e o acesso a informação, quase instantâneo, nos proporcionaram ao longo dos anos, acabaram também por complicar a vida um pouco mais.

A internet, grande responsável pelo grande fluxo de informações no mundo globalizado atual, nos tornou “seres multimídia”, capazes de pesquisar mil informações de mil fontes ao mesmo tempo, de desenvolver uma personalidade virtual, um espaço dentro de nós mesmos capaz de evadir a consciência das pressões do cotidiano.
É possível que com tudo isso tenhamos nos tornado pessoas cada vez mais frias e distantes da realidade. Os relacionamentos tornaram-se cada vez mais superficiais e tudo se tornou muito descartável. A internet nos permite dizer o que pensamos sem ter que responder a ninguém. Permite que ventilemos nossas frustrações sem medo de ser feliz. E na verdade, internamente, não fazemos nada disso. Um desabafo virtual, por mais sincero que seja, é algo que é feito do conforto de casa, através de uma tela de um computador, sem o menor contato onde possam ser percebidos os reais sentimentos das pessoas, fazendo com que dessa forma nunca tenhamos que encarar os nossos próprios demônios internos. Por trás de uma máquina é muito mais fácil ser humano, pensar e dizer coisas boas e bonitas. O mais difícil é viver essa sinceridade na vida cotidiana, e no convívio com as outras pessoas, buscando cada vez mais parecermos seres verdadeiramente HUMANOS, a seres meramente VIRTUAIS.

A questão racial no Brasil

Ana Cristina Ramalho

Cotas nas universidades suprem a carência de indivíduos que sofrem com o preconceito ou ele aumenta diante a esse sistema segregacional?
O possível fim do sistema de cotas das universidades do Rio de Janeiro gera intensas reflexões sobre um assunto, ainda mal resolvido, arraigado no corpo societário: o preconceito racial. Se por um lado há os que defendem a continuidade das cotas devido a uma “dívida histórica” da sociedade para com os negros, por outro, há aqueles que acreditam que a concessão das cotas por etnia acabaria por estabelecer explicitamente uma segregação interracial.
No dia 25 de maio, a Justiça do Rio de Janeiro estabeleceu a suspensão dos efeitos da Lei Estadual 5.346 que prevê o sistema de cotas para parcela de estudantes ingressarem em universidades estaduais. No dia seguinte, a Procuradoria Geral do Estado do Rio de Janeiro entrou com um recurso no Tribunal de Justiça com o intuito de derrubar a liminar que suspendeu o sistema de cotas raciais e sociais para ingresso nas universidades estaduais, adiando-a para 2010, justificando a ação pelo vestibular desse ano estar bem próximo.

A existência das cotas das universidades e o papel do governo
A criação de cotas pelo governo pura e simplesmente não atinge o objetivo ao qual se predispõe, facilitando, com o respaldo da lei, o ingresso de estudantes ao nível superior. Em conjunto, deveria haver investimentos visando melhorias na qualidade do ensino, dando condições para que todos alunos fossem capazes de entrar em universidades por méritos pessoais. Se com um elevado nível de ensino ainda fosse perceptível a necessidade de determinados grupos de serem incluídos em algum sistema de cotas, ele poderia ser instituído e sua existência nem mesmo seria discutida.
A questão que sempre surge com o debate do referido tema é o porquê de não haver investimentos necessários na área da educação. É simples, o indivíduo quando tem acesso a uma educação de qualidade se torna um ser crítico, sendo assim, é mais prudente àqueles que estão e desejam permanecer no governo criar medidas paleativas para o problema da baixa qualidade de ensino, em vez de realmente saná-lo. E o político envolvido com essas causas ainda angaria alguns votos por dar a entender que deseja, de fato, melhorar o sistema educacional brasileiro.
A imprensa, por sua vez, assume papéis antagônicos sobre o tema. Sob ponto de vista do ideal, seria possível dizer que a imprensa, não possuindo um papel manipulador, defende e acusa a proposta de cotas de maneira genuína, por seus profissionais concordarem e discordarem da temática. No entanto, a realidade se mostra um tanto quanto diferente, sendo possível, sim, que haja profissionais da área que o fazem em prol de ideologias pessoais, mas que, na maioria das vezes, baseiam seu discurso de acordo com interesses dos partidos políticos pelos quais são apoiados.
O preconceito no Brasil atual
O preconceito no Brasil existe em uma intensidade muito maior do que aparenta. A sociedade possui a falsa sensação de que preconceito é coisa do passado e que não existe mais na sociedade contemporânea, no entanto, existe e ocorre (em grande parte das vezes) de uma forma velada, que tende a ser até pior do que se fosse explicitado. O fato de todos serem iguais perante a lei e o Estado significa não que todos devem ser tratados da mesma forma, mas que todos devem receber o tratamento necessário para que tenham as mesmas oportunidades.
No caso das cotas raciais, por exemplo, ocorre um paradoxo de difícil compreensão: o desejo de inserir indivíduos no (infelizmente) seleto grupo de universitários do país através da utilização de cotas que acabam por segregar negros, brancos e pardos, determinado qual grupo terá uma porcentagem de vagas reservadas. No final, o procedimento que fora criado para unificar resulta na separação de pessoas pela cor da pele, isto é, na segregação.
Praticamente impossível algum dia ocorrer a extinção completa de todos os tipos de preconceito, uma vez que é da própria natureza humana julgar pelas aparências ou julgar sem conhecimento específico sobre o assunto ou sobre a pessoa. E, outra questão que acaba fomentando o preconceito, tanto racial, quanto religioso, é o sentimento de vingança que é fomentado na sociedade contemporânea; muitas vezes, determinadas atitudes contra específico segmento racial, cultural, religioso ou social são tidas por grupos que tem como fundamento atitudes da mesma espécie que foram cometidas sobre esses, em algum momento do passado.

E o que é a cor da pele afinal?
Todos os seres humanos são diferentes e exatamente por essa diversidade é que a espécie humana é tão encantadora. Sendo assim, as diferenças deveriam ser vistas de maneira positiva, como forma de aprendizado de uns com os outros e não como justificativa para qualquer tipo de preconceito. A diferenciação racial, sob o ponto de vista dos biólogos, não existe, visto que, é apenas a melanina o fator diferenciador, sendo esta denominação vigente somente na ordem social. A cor da pele nada mais é do que aparência, no Brasil ao menos, não existe mais (se é que já existiu) a imagem do índio puro, negro puro ou do branco puro, a miscigenação deu fim a isso. Os portugueses (holandeses, franceses, ingleses, italianos e assim por diante) desde sua chegada difundiram seus genes europeus entre os negros africanos e as tribos indígenas que aqui viviam, resultando nessa população diversificada e reconhecida mundialmente pela beleza.

“Vocês têm negros no Brasil?”
“Sim, nós temos com muito orgulho, sr George W. Bush. Todos nós somos, temos parentes ou amigos que são, graças a Deus e à maravilha da miscigenação”. Não sei se foi essa a resposta dada pelo então Presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, ao ser indagado, mas, sem dúvidas, deveria ter sido.
Até o momento, não se sabe ao certo quando (e qual) será o desfecho da suspensão das cotas em universidades, no entanto, será ainda mais gratificante o momento em que o Brasil poderá ser considerado verdadeiramente um país livre da sombra ignorante do preconceito.

Arte X Indústria cultural

Jéssica Lima

Os tempos mudaram. Os movimentos artísticos já não marcam tão fortemente os grandes momentos históricos, os quais também parecem estar se dissipando na lembrança da maioria das pessoas. Ambos sofreram uma espécie de esmaecimento ao longo dos séculos. A sociedade não mais atribui a devida importância à História, talvez porque a arte, o que a influenciava direta ou indiretamente, deixou de seguir os parâmetros até então conhecidos.
Até meados do século XIX, o artista desvendava os fenômenos sociais através do sentimento artístico, posteriormente traduzido em obra de arte, e não ganhava dinheiro com isso. Pelo contrário, muitas vezes, suas obras somente faziam sucesso após anos de sua morte. Com as transformações culturais trazidas pela aproximação do século XX, a cultura deixou de ser dividida em “arte superior” (erudita) e “arte inferior” (popular), passando essas duas formas de cultura, absorvidas e digeridas, a integrar a chamada cultura de massas. Esse novo tipo de cultura é a aglutinação das culturas erudita e popular. Nesse caso, “aglutinar” é o termo que melhor define a situação, pois significa a adjunção de dois sentidos originariamente distintos que perderam a individualidade. A cultura de massas surgiu a partir do advento dos jornais, da fotografia, do cinema (meios de reprodução técnico-industriais) e foi intensificada pela crescente presença dos meios eletrônicos de difusão, isto é, o rádio e a televisão. A cultura de massas foi considerada por diversos teóricos da comunicação (frankfurtianos e apocalípticos, como Theodor Adorno) como um instrumento de produção de mentes massivas, perpetuando uma única visão de mundo. Eles afirmavam que a verdadeira cultura favorece a singularidade e a capacidade crítico-reflexiva. Em virtude dessa oposição, a melhor denominação para cultura de massas seria indústria cultural, visto que por trás desse emaranhado de significações estaria somente a preocupação máxima com o lucro. A indústria cultural simplifica as artes erudita e popular para o mercado, oferecendo-as como produto à sociedade sob a forma do entretenimento, que, por sua vez, possui um caráter falsamente positivo. Nesse momento, o “artista” deixa de desvendar o mundo e passa a lucrar com o sistema. A arte foi transformada em mercadoria, perdendo sua capacidade de induzir ao momento de reflexão e portanto, cultivando o terreno da repetição e da ilusão. O que na indústria cultural se apresenta como progresso, como inédito, na verdade, permanece igual em todos os sentidos. A estrutura em sua essência é mantida, apenas muda-se a indumentária. Dessa forma, a indústria cultural não está interessada em informar e esclarecer e sim em vender, pois já nasceu contaminada com o imediatismo do lucro.
Entretanto, mesmo a informação sendo voltada para mentes massivas, os receptores podem apreendê-la de formas diferenciadas. Foi nessa brecha deixada pela indústria cultural que a Internet construiu sua trajetória. Um instrumento que tinha todo o potencial de difusão para se tornar mais um massificador, fez justamente o contrário, utilizando as mesmas armas. Na rede se encontra de tudo, é uma mistura incrível de culturas, preferências, bizarrices, serviços oferecidos, etc. Só que os receptores são simultaneamente emissores e agentes da informação, e por isso manejam esse vasto conteúdo com certa propriedade, passando a ter poder para interferir nos produtos simbólicos que consome. A Internet abre espaços para que a sociedade e as várias nações que se conectam diariamente tenham voz, possam expor o que pensam sem censura. E pensar a partir da bagagem do nosso repertório, usando-o como forma de expressão pode ser considerado arte.
Chegou um tempo em que não é mais possível delinear claramente os segmentos de cultura, visto que as diversas combinações existentes são o que fazem a diferença. A questão não é mais separar os nichos de cultura em erudito, popular e massivo, apontando o que seria de fato uma manifestação artística ou não, como fazem muitos teóricos da comunicação. O principal é se deparar com a obra e tentar identificar nela algo que seja familiar, que desperte um sentimento e uma reflexão acerca do tema tratado. A arte só se consagra como arte quando gera esse efeito positivo no receptor, quando contribui para expandir suas fronteiras reflexivas. Esse processo não se dá de forma igualitária, os indivíduos apreendem a informação de acordo com o seu repertório, por isso, mesmo na cultura de massa que visa o lucro, um indivíduo pode identificar uma manifestação artística. Um exemplo disso foi a adaptação do romance de Ariano Suassuna, A Pedra do Reino, para a televisão. O romance é uma manifestação artística que foi inserida num meio de comunicação de massa, a televisão. Entretanto, houve rumores de que a maioria das pessoas não compreendeu aquilo que estava sendo contado poeticamente em episódios. Isso ocorreu devido a falta de bagagem repertórica necessária para dar conta de compreender as combinações semióticas implícitas na obra. Chegamos ao ponto preocupante das consequências da indústria cultural. O hábito de oferecer ao espectador produções esvaziadas de significados – com a aparência de estar apresentando algo novo e de qualidade – torna os indivíduos desqualificados, do ponto de vista crítico e reflexivo, para apreender as verdadeiras manifestações artísticas, já que em nada contribui para expandir os limites do conhecimento acerca de um tema.